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SOBRE A AVALIAÇÃO QUALIS LIVROS 2007 (GEOGRAFIA/CAPES): ALGUMAS PONDERAÇÕES

Prezados colegas e amigos da pós-graduação em Geografia:

Encaminhamos, a seguir, uma contribuição modesta ao debate democrático entre os colegas/pares com o objetivo de refletir sobre um assunto importante: o da implementação da avaliação QUALIS LIVROS, em caráter experimental, na nossa disciplina.

Não questionamos, em momento algum, a importância acadêmica, o valor intelectual ou o senso ético dos atuais colegas responsáveis pela implantação do processo. Sabemos que são pesquisadores do mais alto gabarito, tanto intelectual quanto moral. Trata-se de colegas que, por suas biografias, merecem o nosso respeito e a nossa admiração. Apenas, motivados por algumas preocupações, cremos na importância de submeter algumas idéias a um debate mais amplo    o que nada tem a ver, frise-se, com qualquer desejo de querer desqualificar posições contrárias, que certamente também possuem argumentos em seu favor e sua legitimidade. As linhas que seguem são, portanto, nada mais que um estímulo à reflexão, formuladas dentro de um espírito de colaboração, e jamais de divisionismo.

A avaliação das revistas acadêmicas no sistema QUALIS da CAPES é uma questão pacífica e aceita por todos os colegas. O fato mais importante é que os artigos, em si, são avaliados pelos pares, a partir dos conselhos e comitês editoriais de cada revista, mantendo o anonimato dos autores, fórmula validada internacionalmente. No caso do QUALIS LIVROS a situação parece-nos, em sua atual formatação, bastante complicada e delicada. As seguintes questões nos parecem ser as principais:

1. Ao contrário das revistas acadêmicas avaliadas, a proposta é a de avaliar os livros em si, o que se assemelharia mais à avaliação dos próprios artigos no lugar da análise das revistas.

2. Enquanto que na análise dos artigos acadêmicos, quando solicitados pelos editores das revistas, não sabemos da autoria dos mesmos, no caso dos livros eles já foram publicados e os autores não são omitidos (como, por exemplo, na avaliação dos livros didáticos efetuados pelo MEC). Essa é uma questão delicada, que esbarra, no limite, em um problema de ordem ética, na medida que conhecemos os colegas e podemos ser influenciados por esse conhecimento. Uma situação assemelhada é a da premiação de livros, mas não a da análise dos mesmos como etapa da avaliação da produção acadêmica dos programas da pós-graduação brasileira.

3. No caso da avaliação da uma produção de um colega seria necessário um tempo mínimo. Normalmente, no caso de artigos científicos, temos um mês para responder às solicitações das revistas. Para um livro, um tempo maior, conseqüentemente, seria necessário, tendo em vista que uma avaliação requer uma leitura cuidadosa (como os artigos) e um livro não pode ser avaliado a partir de uma “leitura transversal”, pois é uma atividade de grande responsabilidade acadêmica, profissional e pessoal: a de dar um parecer sobre a produção de um colega.

4. Ao contrário dos artigos, os livros não seguem os mesmos padrões. Há livros de autores individuais, há livros coletivos. Como avaliar uma coletânea, com critérios estabelecidos para um livro individual (ex. adequação metodológica, rigor científico, precisão dos conceitos, senso crítico, pesquisa original etc.), num livro elaborado por 20 autores?... Há livros volumosos, resultado de longas pesquisas, e há pequenos livros, que resultam de ensaios, com maior liberdade acadêmica. Como compará-los?... A margem de subjetividade é imensa, sobretudo porque não são as mesmas pessoas analisando livros diferentes, mas sim colegas espalhados pelo Brasil inteiro, que possuem visões distintas e usarão seus próprios critérios, também distintos, para além dos parâmetros formais de avaliação. 

5. Alguns livros são anais de congressos e simpósios, publicados em forma de livros, o que se tornou muito comum. Como avaliar um congresso inteiro, com o resultado de várias áreas temáticas e vários autores?...

6. Os livros acadêmicos, no caso das editoras sérias, são avaliados por pareceristas ad-hoc, visando à sua publicação. Tem sentido realizar outra avaliação de livros já examinados, e, em certos casos até premiados?...

7. Caso os colegas da área considerem que o QUALIS LIVRO deva ser realmente efetivado, não seria melhor que uma lista de livros fosse distribuída aos possíveis avaliadores, para permitir aos mesmos uma escolha de temas de maior interesse, ou mesmo de livros já lidos total ou parcialmente?

8. De qualquer maneira, um tempo muito maior seria necessário (no mínimo dois meses). Normalmente os avaliadores escolhidos já são os professores e pesquisadores mais sobrecarregados com trabalhos acadêmicos!

9. Não teria mais sentido avaliar as próprias editoras? Há uma certa concentração de editoras comerciais que publicam livros da Geografia, e as editoras universitárias têm seu reconhecimento estabelecido, pela própria produção. Mesmo uma avaliação das editoras, porém, necessitaria de muita reflexão prévia, para não incorrer em simplificações e, no limite, em equívocos.

10. Avaliar os livros em “local”, “nacional” e “internacional” é algo muitíssimo mais problemático (e arbitrário) do que pode parecer à primeira vista. Vamos dar alguns exemplos: em que circunstâncias um livro publicado no Brasil poderia ser considerado “internacional”? Se for uma coletânea que tiver entre seus autores algum(ns) colegas estrangeiro(s)? Somente se o livro tiver sido traduzido e (re)publicado no exterior? Se o autor se ocupar de uma temática “internacional”? Se o autor citar fartamente bibliografia em línguas estrangeiras?... Outro exemplo: será a distinção entre “local” e “nacional” sempre tão simples? O definirá isso: o tamanho e o poder de distribuição da editora, a temática?... Sem uma ampla e profunda reflexão sobre critérios, deixar a tarefa de classificar os livros à livre interpretação de uma multiplicidade de profissionais avaliando sem contato entre si é um risco enorme.

Não queremos com estas idéias, que trazemos para reflexão e debate, em hipótese alguma desqualificar ou negar a importância das diferenças na qualidade da produção acadêmica no Brasil, que existem e são significativas. Não perceber as diferenças e nivelar a todos significa, geralmente, premiar alguns indevidamente e, por outro lado, não prestar o devido reconhecimento à excelência de outros, o que é também injusto. É preciso, no entanto, encontrar formas de equacionar o problema em que o custo não seja maior que o benefício. Urge, portanto, que os profissionais ligados à Pós-Graduação em Geografia no Brasil contribuam para esse debate, aportando seus argumentos    dentro de um espírito não de desunião ou competição, mas de colaboração com os nossos colegas que, junto à CAPES, e com toda a seriedade, têm dado o melhor de si para promover a melhoria da nossa Pós-Graduação. 


Pedro de Almeida Vasconcelos,
Marcelo José Lopes de Souza,
Roberto Lobato Corrêa e
Jan Bitoun



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